Endividamento das famílias baianas atinge o maior nível em oito anos

O aumento do endividamento está sendo puxado pelo cartão de crédito e também pelos carnês

Em setembro, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), elaborada pela Fecomércio-BA e CNC, registrou a quinta alta consecutiva e atingiu 72,2%, maior patamar desde julho de 2013. No mês anterior, o percentual havia sido de 71% e 66,9% em setembro de 2020. Em número de famílias, atualmente são 672 mil na Bahia com algum tipo de dívida, 51,6 mil a mais em relação ao mesmo período do ano passado.

A inadimplência avançou forte, de 30,2% em agosto para os atuais 32,6%, maior nível desde abril de 2013. São 303 mil famílias que não conseguiram pagar a dívida contraída até a data do vencimento, ou seja, estão com conta em atraso.

“Neste mesmo período do ano passado o percentual visto foi de 30,8%, não muito diferente do atual. Porém, se a análise for feita desde o início do ciclo de alta da inadimplência, abril deste ano (23,2%), houve um aumento de 88 mil famílias com contas em atraso em apenas 5 meses”, informa o consultor econômico da Fecomércio-BA, Guilherme Dietze.

E as famílias que já dizem que não conseguirão pagar a dívida em atraso correspondem a 8,6%, igual ao visto no mês anterior e bem abaixo dos 13,1% de setembro de 2020.

Cartão

O aumento do endividamento está sendo puxado pelo cartão de crédito e também pelos carnês. O primeiro está entre 92,2% dos endividados, um pouco mais alto do que agosto (91,8%) e setembro de 2020 (90,5%). E o segundo figura como modalidade de crédito para 13,3% entre os endividados, mesmo percentual do mês anterior, porém, mais que o dobro do visto no ano passado (6,2%).

“Temos que lembrar que a soma de todos os tipos de dívida supera os 100%. Isto acontece por ser uma resposta de múltipla escolha, ou seja, o consumidor pode estar endividado no cartão, no carnê ou em qualquer outro financiamento, ao mesmo tempo”, esclarece Dietze.

Embora o percentual da renda comprometida com a dívida esteja numa média de 31,1%, o que é considerado muito saudável, o tempo de comprometimento é que está subindo. Há um ano, o tempo médio da dívida estava em torno de 5,5 meses, e passou para 6,5 meses em setembro deste ano.

Para o economista é natural acontecer este aumento quando se utiliza mais cartão de crédito e carnês, que tradicionalmente são compras parceladas, sobretudo num momento de dificuldades econômicas, com a inflação elevada e incertezas no mercado de trabalho. “Quando a economia está mais favorável, as famílias pagam mais – relativamente – no débito e no dinheiro”, explica o economista.

O que se nota é que as famílias de Salvador vêm buscando uma saída para manter o consumo em face à inflação. A forma mais fácil e menos burocrática é através do crédito e das duas modalidades em destaque, cartão e carnês.

“É uma saída que gera dúvidas, pois o parcelamento está acontecendo sem dar grandes certezas de que estes compromissos serão pagos quando vierem as faturas e boletos. Parte do aumento da inadimplência, certamente, vem desta situação”, pontua o consultor econômico.

A Fecomércio-BA analisa que o impacto do endividamento pressiona, sobretudo, as famílias de renda mais baixa. A taxa de famílias com renda inferior a 10 salários-mínimos e que possuem algum tipo de dívida está em 75,2%, muito diferente dos 41,2% de endividados com renda superior a 10 salários-mínimos.

A diferença é relevante também nos dados de inadimplência. Para a faixa de renda mais baixa, o percentual, em setembro foi de 34,9% contra 12,9% dos que ganham mais.

“Porém, vale um destaque. Enquanto o percentual de inadimplentes permaneceu igual em relação ao ano passado para a faixa de renda inferior a 10 SM, mais que dobrou para as famílias de renda mais elevada, de 5,9% para os atuais 12,9%. Portanto, a situação econômica está desafiadora para todas as famílias”, completa Guilherme.

Embora haja uma melhora de ambiente com a aceleração da vacinação e reabertura quase que completa das lojas, o cidadão continua lutando contra a inflação que deve persistir até o ano que vem.

“Agora, há o adicional da crise hídrica que forçará o consumidor a economizar energia, mas continuará pagando muito mais caro. No curto e médio prazo, nada deve mudar. Há mais incertezas do que certezas sobre o ambiente econômico e isso afugenta investidores que poderiam gerar uma tração a mais na geração de empregos”, diz o consultor econômico da Fecomércio-BA.

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