Experimentos realizados pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) com uma variedade híbrida de dendê desenvolvida pela Embrapa Amazônia Ocidental  resultaram na produção de um novo tipo de azeite, com baixa acidez e sabor mais suave. A solução impacta diretamente a culinária baiana, visto que a alta acidez do dendê é tida como responsável por distúrbios gastrointestinais, o que afasta muitos apreciadores. O cultivo do híbrido pode contribuir ainda para a sustentabilidade da dendeicultura da região, principalmente de pequenos produtores, por aliar baixo custo de produção e resistência a pragas.

O novo azeite, desenvolvido na Estação Experimental Lemos Maia (Esmai/Ceplac), no município de Una (Bahia), é resultante do cruzamento entre o dendezeiro de origem africana e o caiaué, de procedência americana, conhecido como HIE OxG híbrido interespecífico (entre o dendê e o caiaué). Batizado de Unaué, foi testado em restaurantes do município baiano, com bastante aceitação tanto pelo sabor como pela qualidade.

O produto herdou a baixa acidez e a alta concentração de ácidos graxos insaturados (bons para o coração) do caiaué, além de ser mais claro e uniforme. Por apresentar alto percentual de oleína, é indicado para moquecas, fritadas de ovo, aipim, frango etc. Já a versão para acarajés vem com certo teor de estearina, pois as baianas produtoras de acarajés preferem um azeite com mais gordura.

Segundo o pesquisador da Ceplac José Inácio Lacerda Moura,  o futuro aponta para a estruturação de um trabalho em parceria com a Embrapa voltado à distribuição de mudas do híbrido a produtores, especialmente agricultores familiares, dispostos a produzir e processar o dendê na própria fazenda. Há que se considerar ainda que o híbrido tem porte baixo, o que minimiza os custos de colheita e apresenta resistência moderada a pragas e doenças, notadamente ao Anel Vermelho, doença comum e altamente letal ao dendezeiro de origem africana (Tenera).

Características do híbrido

O dendezeiro (foto abaixo), principal fonte mundial de óleo vegetal, conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, sigla em inglês) chegou ao Brasil no século XVI, trazido do continente africano pelos escravos e desembarcando no estado da Bahia, onde encontrou no Recôncavo baiano plenas condições climáticas e de solo para o seu desenvolvimento, dando origem aos dendezais subespontâneos existentes atualmente na região.

Já o caiaué   é endêmico da região tropical úmida da América Latina com populações espontâneas no Brasil, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guiana Francesa, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Peru, Suriname e a Venezuela.

Os pesquisadores da Embrapa Ricardo Lopes e Raimundo Cunha explicam que o híbrido interespecífico entre essas espécies (HIE OxG) tem sido explorado em programas de melhoramento genético com objetivo de associar a alta produtividade em óleo do dendezeiro com a resistência ou tolerância a pragas e doenças, porte baixo e qualidade do óleo do caiaué. Em 2010 a Embrapa lançou a primeira cultivar de HIE OxG desenvolvida no Brasil, denominada BRS Manicoré, obtida a partir do cruzamento de caiaué da origem Manicoré com dendezeiro da origem La Mé.

Qualidade do óleo beneficia produtores e consumidores

O óleo do HIE OxG tem menor quantidade de ácidos graxos livres do que o do dendezeiro e, por isso, apresenta menor acidez e melhor qualidade. É também mais insaturado e com maior teor de vitamina E e carotenos do que o óleo do dendezeiro. Estudos também demonstram que o óleo do híbrido tem potencial para o preparo de alimentos funcionais, rico em polifenóis, com propriedades antioxidantes e impacto favorável sobre os lipídios plasmáticos humanos, relacionados com os fatores de risco cardiovascular.

Devido a essas características, o uso desse óleo, principalmente no caso de produtos da culinária tradicional que utilizam o óleo de dendezeiro não refinado, proporcionará produtos de melhor qualidade, sabor, propriedades nutracêuticas e funcionais.

Considerando as características favoráveis do HIE OxG, tanto agronômicas como de qualidade do óleo, vislumbra-se que seu cultivo pode contribuir de forma significativa para a sustentabilidade da dendeicultura baiana, principalmente de pequenos produtores, bem como destacar ainda mais a culinária tradicional baiana.

Na Bahia, onde o óleo bruto (não refinado) de dendê tem amplo uso e importância na culinária, a qualidade do HIE OxG é altamente favorável aos produtores, que poderão obter melhor remuneração pelo produto, e aos consumidores, que terão acesso a produtos de melhor qualidade e mais saudáveis.

Na Bahia, onde o óleo bruto (não refinado) de dendê tem amplo uso e importância na culinária (Fotos: Divulgação)

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