Doutoranda da UFRB detecta pela primeira vez vírus em abelhas nativas do Brasil

A pesquisa detectou os tipos virais A e C, este último ainda raro e considerado mortal para a espécie

Em 2019, a produção baiana de mel gerou um valor de R$ 26,1 milhões (Foto: Fábia Pereira/Embrapa Meio Norte)

O Vírus das Asas Deformadas, responsável pelo massivo declínio de colônias de abelhas nos Estados Unidos e países europeus nas últimas décadas, foi detectado pela primeira vez em abelhas sem ferrão no Brasil, segundo um novo estudo publicado em janeiro deste ano na revista científica Journal of General Virology e premiado no Reino Unido. A descoberta é de autoria da doutoranda em Ciências Agrárias pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Flaviane Souza, em parceria com a Universidade de Salford.

A pesquisa envolveu a espécie de abelha nativa sem ferrão Melipona subnitida, popularmente conhecida como Jandaíra, e os resultados revelaram que 100% das colônias avaliadas possuíam o vírus deformador das asas das abelhas (DWV, devido à sigla em inglês). O estudo foi conduzido durante o período de maio de 2017 a dezembro de 2018 nos estados do Nordeste, a área de ocorrência natural da M. subnitida, e na ilha de Fernando de Noronha, onde estas abelhas foram introduzidas há 30 anos pela ação do homem e sobrevivem isoladas desde então.

“Este estudo fornece o primeiro relato para ocorrência do DWV em abelhas nativas brasileiras. Outros estudos já foram conduzidos aqui no Brasil e na Argentina com abelhas sem ferrão, sem, contudo, detectarem a presença viral. Agora podemos dizer que esse vírus é mundial”, diz Flaviane, que também atua na UFRB como Técnica de Laboratório na área de Biologia e é a principal autora do estudo.

O vírus DWV teve seus primeiros registros na Ásia em meados dos anos de 1970 e de lá se espalhou pela Europa e América do Norte no inverno de 2006-2007, num fenômeno que ficou conhecido como CCD (Colony Collapse Disorder) ou Síndrome do Colapso de Desordem da Colônia. O declínio das abelhas iniciou-se com a associação do DWV com o ácaro Varroa destructor, um gênero que se alimenta das larvas de abelhas, e, de acordo com os especialistas, transformou-se numa pandemia mundial por meio do comércio e transporte de abelhas para a polinização de culturas.

Flaviane: ‘Apesar dos números alarmantes, não tínhamos registros desse vírus ou suas formas de danos no Brasil’

Manejo

“Apesar dos números alarmantes, não tínhamos registros desse vírus ou suas formas de danos no Brasil. Em geral, as colônias brasileiras sofrem perdas devido à falta de manejo, desmatamento, avanço da agricultura, uso de pesticida, dentre outros”, explica Flaviane. O objetivo de sua pesquisa foi, então, descobrir se havia a ocorrência do DWV nas abelhas nativas no país, quais as variantes (tipos A, B e C) e sua carga viral. Segundo a bióloga, foram escolhidas abelhas típicas do Nordeste, a fim de contribuir com o fortalecimento das espécies regionais.

Ela usou a técnica da transcriptase reversa com PCR em tempo real, que acessa o material genético do vírus que está dentro da abelha e amplia sua quantidade para a realização dos testes. Como resultados foram encontrados os tipos virais A e C, estando a variante B ausente. Para a área amostral do continente, a variante tipo A foi a dominante, sendo ultrapassada pelo tipo C apenas em alguns lugares. Para a ilha, o tipo A foi sempre dominante, prevalecendo superior a 90%. “A dominância do tipo A reflete a mesma situação encontrada nos EUA, embora lá o tipo B pareça estar substituindo lentamente as demais”, afirma Flaviane. “Já o tipo C foi recentemente descoberto, então pouco se conhece ainda sobre esta variante”, explica.

O professor Stephen J. Martin, da Universidade de Salford, um dos colaboradores da pesquisa e uma das referências mundiais em insetos sociais, como abelhas, cupins e formigas, relata que, até o momento, mais de 60 espécies de insetos e cinco espécies de aranhas e ácaros foram infectadas com o vírus DWV associado à abelha. “A pesquisa de Flaviane detectou que existem abelhas no Brasil infectadas com a rara cepa C do vírus, que acredita-se ser mortal para esta espécie. Então, agora, é importante determinar se o DWV está causando impacto na flora e fauna local, reduzindo o número de polinizadores”, diz.

Os primeiros resultados do estudo foram descritos no artigo Occurrence of deformed wing virus variants in the stingless bee Melipona subnitida and honey bee Apis mellifera populations in Brazil, publicado na edição de janeiro do Journal of General Virology, da Microbiology Society. A pesquisa com o título Detection of Deformed Wing Virus (DWV) in Brazilian stingless bees também foi premiada em primeiro lugar na categoria 3 Minutes Thesis Competition durante a X Conferência da Associação Brasileira de Estudantes de Pós-Graduação e Pesquisadores no Reino Unido (Abep-UK), evento realizado na Embaixada do Brasil em Londres.

Comemoração

O pró-reitor de Pesquisa, Pós-Graduação, Criação e Inovação da UFRB e orientador do estudo, professor Carlos Alfredo Lopes de Carvalho, comemora estes resultados que contribuem no diagnóstico do atual estado da saúde das abelhas sociais no Brasil, notadamente as patologias associadas aos meliponíneos. Além disso, Carvalho acredita que o estudo coloca a Universidade em posição de destaque na linha de pesquisa em saúde das abelhas, na qual outros trabalhos estão sendo realizados no âmbito do Grupo de Pesquisa Insecta do Centro de Ciências Agrárias, Biológicas e Ambientais (CCAAB) da UFRB, tanto no Programa de Ciências Agrárias quanto no Programa de Ciência Animal.

O vírus DWV teve seus primeiros registros na Ásia em meados dos anos de 1970 e de lá se espalhou pela Europa e América do Norte

“A parceria com o professor Stephen J. Martin, viabilizada por meio do programa de Professor Visitante Especial (PVE) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), possibilitou a criação desta linha de pesquisa que já beneficiou a formação de diversos estudantes de graduação e pós-graduação, além de estágios pós-doutorais para pesquisadores e de estágio sanduíche para doutorandos da UFRB na Universidade de Salford. Trata-se de um projeto exitoso que possibilitou a internacionalização dos docentes e discentes da UFRB envolvidos, como é o caso da Flaviane”, afirma.

O trabalho com o vírus DWV também contou com a orientação da professora da UFRB, Maria Angélica Costa, especialista em melhoramento genético e biotecnologia, e teve ainda o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e do CNPq, pelos respectivos programas de bolsas de Doutorado Sanduíche no Exterior. A defesa da tese de Flaviane está prevista para julho deste ano no Programa de Pós-Graduação em Ciências Agrárias da UFRB.

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