Bahia assume liderança no ranking da desigualdade de renda

Em junho, a Bahia fechou 1.763 postos de trabalho com registro em carteira, uma diminuição de 0,11% em relação ao montante existente no estoque de maio (Foto: Rafael Neddermeyer/Fotos Públicas)

Entre 2016 e 2017, a Bahia foi o estado brasileiro em que mais cresceu a desigualdade nos rendimentos efetivamente recebidos por todos os trabalhos (salário), puxada, sobretudo, pelo forte aumento verificado nos rendimentos dos que ganham mais. O movimento foi em sentido contrário ao do país como um todo, onde a distância entre os que ganham mais e os que ganham menos se manteve relativamente estável no período, com uma pequena redução.

De um ano para o outro, o salário médio real (descontada a inflação) da metade dos trabalhadores que ganhavam menos na Bahia caiu de R$ 472 para R$ 444 (-5,9%), enquanto o rendimento médio de trabalho dos 10% de trabalhadores com maiores salários aumentou 31,7%, passando de R$ 5.946 para R$ 7.833.

Assim, de 2016 para 2017, na Bahia, a distância entre o 10% de trabalhadores com os maiores rendimentos e a metade dos trabalhadores com menores rendimentos teve o maior aumento do país: cresceu 40,0%, enquanto, na média nacional, houve uma relativa estabilidade, marcada por uma pequena redução de -0,50%.

Em 2017, na Bahia, os 10% de trabalhadores com maiores rendimentos ganhavam, em média, 18 vezes o salário da metade dos trabalhadores que ganhavam menos. Essa diferença havia sido de 13 vezes em 2016. No país como um todo, a distância permaneceu em 12 vezes de um ano para o outro. Os resultados são do módulo Rendimento de Todas as Fontes 2016-2017, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados hoje (11/04/2018) pelo IBGE.

O incremento no rendimento de trabalho dos que já ganhavam mais, entre 2016 e 2017, levou a um aumento de 13,1% no rendimento médio mensal efetivamente recebido pelas pessoas de 14 anos ou mais de idade que trabalhavam, na Bahia: de R$ 1.397 para R$ 1.580. Foi o maior aumento percentual entre os estados, empatado com o verificado na Paraíba.

Entretanto, esse aumento salarial (+13,1%) na Bahia foi fortemente concentrado nos 10% de trabalhadores que ganhavam mais (+31,7%), enquanto os 90% restantes tiveram queda média de 0,9% nos seus rendimentos (de R$ 892 para R$ 884).

No país como um todo, o rendimento médio de trabalho efetivamente recebido caiu 2,0% entre 2016 e 2017, de R$ 2.223 para R$ 2.178. Embora tenha aumentado, o salário médio na Bahia, em 2017 (R$ 1.580), além de continuar abaixo da média do país (R$ 2.178), era o 8º mais baixo entre os estados – em 2016, o estado tinha o 4º menor rendimento médio de trabalho do país.

Rendimento de trabalho aumenta mais para homens, brancos e idosos

Por ter sido concentrado nas fatias da população que já tinham os maiores salários, o aumento do rendimento efetivamente recebido por todos os trabalhos, entre 2016 e 2017, na Bahia, foi maior para os homens (+17,2%) do que para as mulheres (+6,2%); para os brancos (+38,7%) do que para os pardos (+5,7%) e pretos (-1,6%); e para as pessoas de 60 anos ou mais de idade (idosos) que ainda trabalhavam (+46,9%) do que para as demais faixas etárias tradicionalmente associadas ao mercado de trabalho, como pessoas entre 25 e 29 anos de idade (+21,2%), 30 a 39 anos (+9,2%) e 40 a 49 anos (+17,5%).

Por isso, acentuou algumas desigualdades já existentes, sobretudo por sexo e cor ou raça. Se, em 2016, as mulheres baianas que trabalhavam recebiam em média o equivalente a 85,0% do salário dos homens, um ano depois passaram a receber 77,0%. Em 2016, o rendimento médio dos pardos era 73,1% o dos brancos e passou a 55,7% em 2017; já o dos negros equivalia a 69,0% dos brancos em 2016 e passou a representar, em média, menos da metade (48,9%) em 2017.

Estado passa a líder no ranking de desigualdade salarial

O aumento da desigualdade nos rendimentos de trabalho na Bahia, entre 2016 e 2017, se reflete no Índice de Gini, que mede a desigualdade numa distribuição qualquer e vai de 0 a 1, sendo mais desigual quanto mais próximo de 1.

No ano passado, o estado teve o maior Índice de Gini (ou a maior desigualdade) do país para os rendimentos de trabalho efetivamente recebidos: 0,599, com um aumento frente a 2016 (quando havia sido de 0,537) e acima da média nacional, que foi de 0,524 em 2017 e 0,525 em 2016 – ou seja, manteve-se estável com uma leve tendência de queda.

Os estados com menores desigualdades entre os rendimentos de trabalho, em 2017, foram Santa Catarina (0,408), Rondônia (0,438) e Mato Grosso (0,446).

Rendimento domiciliar per capita na Bahia não chega ao salário mínimo 

O aumento nos rendimentos de trabalho na Bahia foi o principal responsável pela alta de 7,6% no rendimento médio mensal real domiciliar per capita no estado (soma de todos os rendimentos do domicílio dividida pelo total de pessoas que moram nele), que passou de R$ 803 em 2016 para R$ 864 em 2017.

Foi o quarto maior aumento no rendimento domiciliar per capita entre os estados e variação bem acima da média nacional (-1,1%, de R$ 1.285 para 1.271). Ainda assim, em 2017, o rendimento domiciliar per capita na Bahia estava 32,0% abaixo da média do país, era menor que o salário mínimo no ano (R$ 937) e ficava em 17º lugar entre os 27 estados (em 2016, havia sido o 20º).

O rendimento de trabalho representava quase 70% do rendimento domiciliar per capita na Bahia (69,5%), menos do que a média nacional (73,8%), mas com um aumento de participação em relação a 2016 (67,5%). Os rendimentos de outras fontes (aposentadoria e pensão; aluguel e arrendamento; pensão alimentícia; doação e mesada de não morador; e outros rendimentos, que incluem programas sociais e investimentos como poupança e ações) reduziram um pouco sua participação no rendimento domiciliar per capita dos baianos: de 32,5% para 30,5%.

Tanto no Brasil quanto na Bahia, dentre os rendimentos de outras fontes, que não o trabalho, o mais importante é o de aposentadorias e pensões, que representa cerca de 1/5 do rendimento médio domiciliar per capita tanto no país (19,4%) quanto no estado (20,5%).

Em seguida vêm os chamados outros rendimentos, que representam 6,3% do rendimento domiciliar per capita na Bahia – quase o dobro da média nacional (3,3%) e a terceira maior participação do país, abaixo apenas de Maranhão (8,0%) e Alagoas (6,6%).

 3ª maior desigualdade no rendimento domiciliar per capita

Assim como ocorreu com o rendimento de trabalho, a Bahia também teve um dos maiores crescimentos na desigualdade da renda domiciliar per capita, entre 2016 e 2017, no país. Isso porque o aumento desse rendimento se concentrou fortemente nas residências que já tinham as maiores rendas, caindo naquelas com menores rendas.

Nos 10% de domicílios com maiores rendimentos no estado, a renda per capita aumentou 21,2%, passando de R$ 3.485 em 2016 para R$ 4.225 em 2017; nos 90% restantes, houve uma redução média de -3,0%, de R$ 505 em 2016 para R$ 490 em 2017.

Assim, no ano passado, a renda por morador nas residências com 10% maiores rendimentos (R$ 4.225) era 19 vezes aquela da metade dos domicílios com menores rendimentos (R$ 224). Em 2016, a distância entre os 10% de domicílios com maior rendimentos per capita e a metade das residência com menores rendimentos per capita era de 14 vezes – ou seja, em um ano, essa diferença cresceu 32,1%. Foi o maior aprofundamento na desigualdade do rendimento domiciliar per capita do país.

Em média, no Brasil o rendimento per capita dos 10% de domicílios com maior renda (R$ 5.501) era 14 vezes o da metade dos domicílios com menor renda (R$ 385) e permaneceu estável entre 2016 e 2017.

O aumento da desigualdade na renda domiciliar per capita também se evidencia no Índice de Gini, para esse rendimento que, na Bahia, teve o maior aumento do país entre 2016 e 2017, passando de 0,548 para 0,599. No Brasil como um todo, o Gini do rendimento domiciliar per capita manteve-se estável, em 0,549.

A variação positiva do Índice de Gini na Bahia fez o estado passar do 9º para o 3º lugar no ranking nacional de desigualdade de renda domiciliar per capita, abaixo apenas de Amazonas (0,604) e Distrito Federal (0,602).

 Bolsa Família

Na Bahia, 27,9% dos domicílios recebiam Bolsa Família em 2017, o que representava pouco mais de 1 em cada 4 residências. Era o oitavo maior percentual entre os estados e praticamente o dobro da média nacional: no Brasil, em 2017, 13,7% dos domicílios eram beneficiados pelo programa.

Em relação a 2016, quando 28,8% das residências na Bahia recebiam Bolsa Família, o percentual de atendimento do programa caiu um pouco no estado (menos 37.904 domicílios). No país também houve uma pequena redução no percentual de domicílios atendidos (era 14,3% em 2016), o que representou menos 326 mil domicílios beneficiados.

Na Bahia, os 1,4 milhão de domicílios beneficiados pelo Bolsa Família em 2017 tinham, em média, mais moradores (4,6) do que aqueles não atendidos (3,3) e um rendimento domiciliar per capita de R$ 280, ou quase 1/4 do rendimento daqueles não atendidos pelo programa (R$ 1.189).

Tinham ainda menor cobertura dos serviços de saneamento básico, sobretudo a coleta de esgoto (36,2% dos domicílios com Bolsa Família eram atendidos, frente a 63,4% entre os domicílios não atendidos).

A presença de bens duráveis também era menor nos domicílios atendidos pelo Bolsa Família, sobretudo da máquina de lavar (existia em 14,9% dos domicílios com Bolsa Família na Bahia e em 39,6% daqueles não atendidos) e computador (estavam em15,7% dos domicílios atendidos pelo programa e em 38,1% daqueles não atendidos).

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