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Mortean: "Pode-se dizer que há duas economias extremamente interessantes: Irã e Egito" (Foto: Divulgação)
Mortean: "Pode-se dizer que há duas economias extremamente interessantes: Irã e Egito" (Foto: Divulgação)

“O Oriente Médio é hoje atrativo por seus grandes números”

Jorge Mortean é geógrafo formado pela USP, mestre em estudos regionais do Oriente Médio pela Academia Diplomática do Irã, professor de Relações Internacionais da FAAP e consultor estratégico de negócios entre Brasil e Oriente Médio pela Mercator Business Intelligentsia. Nesta entrevista ao Bahia de Valor ele fala sobre a importância atual da região para o mundo e para o Brasil e comenta sobre oportunidades de negócios para as empresas brasileiras. “A região do Oriente Médio é importante por suas enormes reservas financeiras, provindas de receitas com a exportação de hidrocarbonetos (gás natural e petróleo) e por sua localização estratégica”, diz .

O que representa para o mundo a região que compreende o Oriente Médio?

Em princípio, o chamado “berço civilizatório” compreendia a área que é geograficamente conhecida como Levante Fértil, englobando a Mesopotâmia (hoje Iraque e Síria), o Líbano e o Irã, dada a alta descarga hídrica (montante de chuvas e neve), uma vez que a água é um elemento vital à humanidade, especialmente naquela região extremamente árida. Os povos originais puderam desenvolver, a partir do advento do fogo, técnicas agrícolas, linguagem verbal e, principalmente com a invenção da roda, a expectativa de vida aumentou significantemente, proporcionando melhor longevidade e qualidade de vida àquelas populações. Com isso, cientificamente, todas as bases que temos hoje de química, farmacêutica, alimentação, física, matemática, geografia, astronomia, navegação, engenharia e arquitetura, tiveram origem naquela região.

Culturalmente, influências nos campos como política, filosofia, monoteísmo religioso e linguística são marcantes no Ocidente até hoje. Além dessas contribuições históricas, o Oriente Médio é hoje atrativo por seus grandes números: sua área total é aproximadamente equivalente ao território brasileiro (8 milhões de km²), com solos, climas e biomas distintos; sua população computa cerca de 400 milhões de habitantes e o PIB regional, segundo o FMI, gira em torno de US$ 4 trilhões, com ótima previsão de crescimento em 3%, ao ano, até 2017. Podemos citar, ainda, que a região do Oriente Médio é importante por suas enormes reservas financeiras, provindas de receitas com a exportação de hidrocarbonetos (gás natural e petróleo) e por sua localização estratégica – a região serve de entreposto entre Europa, África e Ásia, o que a faz extremamente estratégica.

Quais economias podem trazer grandes negócios e investimentos para os empresários brasileiros?

Pode-se dizer que há, principalmente, duas economias extremamente interessantes neste momento: Irã e Egito. O Irã vive uma reforma política e econômica sem precedentes: conseguiu reconquistar sua confiança com o Ocidente e, como reconhecimento, teve US$ 100 bilhões, reativados em fundos de investimentos internacionais. Ou seja, a nação persa hoje dispõe de uma gigantesca linha de crédito, o que a torna economicamente muito mais interessante que nossos vizinhos aqui na América do Sul. Somado a isso, segundo dados de 2014 do FMI, a paridade do poder de compra “per capita” dos iranianos é maior que a dos brasileiros, colombianos e indonésios – ou seja: 78 milhões de habitantes agora sairão avidamente às compras, e como o país permaneceu isolado até o mês passado, a demanda por produtos e serviços será enorme agora com o fim das sanções que abatiam os iranianos. O Irã necessita renovar tecnologicamente seu grande parque industrial e também melhorar a dinâmica logística e comercial, tendo o Brasil aí uma grande oportunidade de investimentos.

Já o Egito, o fator de atração é a estabilização política e a renovada dos laços estratégicos com o Ocidente. Com sua imensa população (91 milhões de habitantes) e com uma economia que retoma taxas de crescimento, o país se configura como um enorme mercado a produtos e serviços brasileiros, já que carece de indústrias e o comércio, após anos de estagnação econômica, ainda se encontra insipiente. Numa segunda categorização, há dois países, em particular, que valem um enfoque especial: o Omã, por seus investimentos em infraestrutura e excelentes relações diplomáticas com todos os países da região, podendo servir de entreposto comercial para todo o Oriente Médio, bem como o Líbano, que, apesar de sua pequena população, tem uma economia dolarizada, sendo uma atração não só a grupos de investimentos como também às nossas exportações.

Além destes países, há destaques já corriqueiros na nossa balança comercial, porém não menos importantes, de outras potências econômicas e demográficas da região, como Turquia, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, com demandas sempre crescentes. Por fim, aos investidores mais audaciosos, dois países merecem atenção: Iraque e Afeganistão. A reconstrução destes dois países tem sido um chamariz de investimentos, em todos os setores, e, por incrível que pareça, o risco é muito baixo, já que a demanda é altíssima e a concorrência é (ainda) praticamente nula.

Quais os produtos e serviços são mais procurados pelos empresários do Oriente Médio?

O Brasil tem uma grande oportunidade ao exportar os seguintes produtos: cosméticos, carnes bovinas e apinas, soja, milho, açúcar, frutas tropicais, próteses ortopédicas, instrumentação médica, utensílios domésticos, máquinas de automação, autopeças e aviões. Já os serviços, merecem destaques as nossas franquias de alimentação e vestuário.

O que precisamos saber sobre o Oriente Médio para entender sua relação com o mundo ocidental?

Basicamente, precisamos saber que o Oriente Médio foi desestabilizado (e ainda o é) em questões bem pontuais e geograficamente bem localizadas, especificamente por interferência estrangeira (ocidental, sobretudo). Antigamente, as disputas territoriais eram decorrentes da expansão demográfica, dado ao aumento da qualidade de vida daqueles povos. No entanto, isso não refletia necessariamente conflitos étnicos-culturais, como atualmente. O fato é que os interesses ocidentais baseados no nosso estilo de vida (dependência extrema ao petróleo e gás natural) jogaram os povos uns contra os outros, criando uma terrível “dança de fronteiras” e diretamente geraram conflitos de cunho social, que são politicamente muito difíceis de, primeiro, se compreender e, segundo, de solucionar.

As divisões políticas atuais no Oriente Médio são fruto da intervenção direta ocidental. Com exceção do Irã, que corresponde ao antigo Império Persa, os demais países tiveram seus limites artificialmente demarcados pelos interesses ocidentais nos recursos naturais da região. A incisão política ocidental fez com que povos e religiões se separassem, criando mal-estar político entre os países recém-estabelecidos, após a importância econômica que o petróleo tomou para o Ocidente. Propositalmente, foram estabelecidos governos-fantoches, extremamente autoritários e gananciosos, que hoje para nada se preocupam com o bem-estar social – o que levou à tanta pobreza e, portanto, conflitos.

Cite algumas curiosidade da região…

Assim como um brasileiro e um guatemalteco têm pouco em comum, um saudita e um iraniano têm menos ainda. É preciso ter em mente que o Oriente Médio, por ter sido nosso berço civilizatório, é uma região marcada pelo seu belo multiculturalismo. A região é plural em grupos étnicos (sobretudo, semitas, persas e turcos), religiões e suas ramificações (muçulmanos sunitas e xiitas, judeus, assírios, caldeus, cristãos ortodoxos, zoroastristas, entre outros) e línguas (árabe, curdo, turco, persa, hebraico e armênio). Não só porque se mora a algumas centenas de quilômetros do vizinho é que ambos são a mesma coisa. Armênios, libaneses e sírios que emigraram ao Brasil no começo do século passado foram apelidados de “turcos”, pois suas nações, naquela época, estavam sob ocupação e domínio do antigo Império Turco-Otomano, atual Turquia. Porém, esse termo soa bem pejorativo aos ouvidos desses imigrantes e seus descendentes. Há de se tomar cuidado.

Outra curiosidade é que em grande parte dos países onde a população majoritariamente é muçulmana, os finais de semana caem na quinta-feira e na sexta-feira. Já em Israel, o final de semana cai na sexta-feira e no sábado. Ao contrário do que se pensa, viver nos centros urbanos do Oriente Médio é muito seguro. A violência urbana é praticamente zero. E a população é absolutamente gentil para com os brasileiros, principalmente. Temos uma ótima fama por lá. Atenção: pechinchar é obrigatório no comércio de bazares e de rua.

Os lojistas se recusam a vender àqueles que não insistem. Já, no mundo dos negócios, negociações comerciais com os locais muitas vezes duram quatro horas; um período longuíssimo aos olhos e paciência ocidentais, não é mesmo? Essa é a arte de negociar em um outro tempo e espaço: o deles. A palavra “saudade”, que só existe na língua portuguesa, deriva do persa “sar dard”, literalmente “cabeça que dói” (dor-de-cabeça), pois os navegadores portugueses, quando chegaram à Pérsia (atual Irã) em 1502, observaram que os habitantes locais levavam a mão à cabeça quando sentiam nostalgia por algo. Outra modificação que o persa trouxe ao português foram os dias comerciais da semana. Antes, a língua portuguesa observava as regras latinas, como no francês, espanhol e italiano, onde os nomes dos dias da semana coincidem com uma ordem astronômica. O persa e o português, portanto, são as duas línguas do mundo onde o comércio (as “feiras”) determinou tal nomenclatura.

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